Gente qe acorda bem-humorada demais me irrita. São insuportáveis os que mantém uma rotina de sono diferente da minha. Por esse ponto de vista, todos são insuportáveis. É complicado me explicar, mas simplesmente não me agradam os sorrisos matinais. Minha disposição não vem com o nascer do sol. Meu ânimo demora para me encontrar — geralmente, só estou totalmente disposto depois do meio-dia. Eu não tomo café. Nem gosto e nem tem o mesmo efeito comigo em relação aos demais. Uma xícara de café é suficiente para qualquer pessoa “normal” exibir um sorriso no rosto e uma animação de artista circense. Café não me desperta. Pelo contrário, me dá ainda mais sono. O caldo escuro e fumegante pesa minhas pálpebras e instiga meus bocejos. Vez ou outra, minto para mim mesmo que meu paladar exigente não tem fundamento algum, e sigo os conselhos dos demais para me livrar da preguiça das primeiras horas do dia. Convenço-me que a solução dos problemas alheios servirá para mim. Mas o que sempre acontece é o repúdio e o nojo, o céu da boca se comprime e toca a língua amargada pela bebida, que se contorce em aflição. Café, definitivamente, não me ajuda com a indisposição. Suporto meu sono quieto e sem reclamar. Atravesso a manhã desanimada, mas esperançoso por uma tarde melhor. Vou almoçar, e aí sim, ficarei bem. Tudo que preciso para me adequar a uma nova realidade é de tempo. Não é uma tarefa fácil, mas não aprendi a fazê-la de outra maneira.
Acordar é deprimente, tanto quanto viver. Sou tomado pela indignação — e conseqüentemente pelo sarcasmo — quando vejo um sorriso de alguém ao dizer saber como resolver meus problemas ou minhas questões mal resolvidas nos relacionamentos. É angustiante ouvir um “tudo vai ficar bem” ou “você vai sair dessa”. Penso comigo: “você saiu dessa e isso é tudo, não tem nada a ver comigo”. Pessoas tem um mal-costume horrível de generalizar as coisas. Nem tudo que é parecido é igual. Detesto comparações idiotas. Assim como café, as soluções dos problemas das outras pessoas geralmente não se aplicam a mim. Não me resolve, pelo menos. Ouço a experiência de alguém próximo, que diz ter vivido algo parecido com a minha situação, mas seus métodos não surtem o mesmo efeito comigo. Empenho-me em aceitar opiniões e propostas, das mais desesperadas às mais singelas, mas minhas angústias parecem se fortalecer com minhas decisões inconseqüentes. Nem sempre as pessoas dão conselhos pensando em nos ajudar. Pode ser que simplesmente não nos aguentam nos ver abatidos ou tristes, e fazem especulações fantasiosas e desesperadas numa tentativa frustrada de resolver nosso problema. Aconselhar outras pessoas com outros problemas é muito fácil. Difícil é viver cada uma de nossas palavras. O café não cura minha preguiça, e os conselhos não resolvem meus lamentos. Mal posso esperar por um meio-dia em minha vida. Quero logo aproveitar uma tarde feliz, sem preguiça e sem tristeza.
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